Tem que desligar

Tive o prazer de contribuir em uma reportagem repleta de dicas e orientações sobre a educação e o uso da tecnologia, aliado ao equilíbrio na vida digital. Com Chantal Brissac, editora responsável da Revista 29HORAS.

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A psicopedagoga Denise Mineiro gosta de conhecer a casa e abrir a geladeira dos seus pacientes – em geral, crianças e jovens com dificuldades de aprendizado e desenvolvimento. Não, ela não é também nutricionista, mas usa a alimentação em prol da saúde mental, emocional e física dos pequenos. “A nutrição é fundamental para o desenvolvimento intelectual e a boa performance escolar das crianças”, diz Denise, que ajuda a montar cardápios e a reeducar os hábitos alimentares.

Assim, depois de conversar com os pais e compreender as motivações da consulta, Denise traça um plano em que o estilo de vida, a forma de estudar e a personalidade de cada paciente são levados em conta. Com mais de quarenta anos de experiência no atendimento clínico pedagógico e psicopedagógico, Denise – que tem a mineirice no nome, mas é paulistana – observa que hoje os problemas mais comuns das crianças estão relacionados à ansiedade, um mal do século 21.

“O ritmo lá fora está alucinante, são muitos elementos distratores. É muita informação visual, muita luz, muita buzina, muito trânsito. É preciso equilibrar a vida e moderar o mundo digital. Tudo o que é em excesso faz mal porque vicia, os neurotransmissores adormecem”.
A exemplo de instituições como a Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Canadense de Pediatria, que aconselham evitar o contato com celulares, tablets e games até os seis anos, Denise é contra a exposição precoce à tecnologia. Ela vê aumentar o número de crianças ansiosas, com distúrbios de atenção e atrasos cognitivos, além dos casos de obesidade, dores articulares e outros problemas de saúde decorrentes do sedentarismo e do tempo de conexão.

Denise Mineiro, artigo "Hora de desligar" - Revista 29HORAS, 2017

A psicopedagoga Denise Mineiro aconselha equilíbrio na vida digital

“As crianças se alimentam mal, sentam mal e respiram de forma deficiente. Para muitos pais, é mais fácil dar um tablet ou smartphone, porque ‘distrai’. Entendo que os pais hoje trabalhem muito e estejam sobrecarregados, mas é preciso abraçar, conversar, almoçar junto, caminhar, ler histórias, dar e cobrar tarefas, brincar… Hoje todo mundo está muito conectado e pouco comunicado”, ela afirma, lembrando que atividades motoras simples como lavar e torcer uma roupa ou descascar uma laranja são poupadas e se mostram essenciais para o desenvolvimento infantil. “Querer poupar os filhos é bem prejudicial”, ela atesta. Recentemente, observou em sua sala de espera um menino que não virava a página do livro. Ele esperava a babá virar. Em relação à tecnologia, um caso grave foi o de um garoto de sete anos, deprimido, que ficava mais de dez horas por dia no computador. “Os pais lidaram mal com a culpa da separação e passaram a disputar com presentes tecnológicos. O tratamento foi longo, mas bem-sucedido, com foco na meritocracia”. Em algumas situações de compulsão severa o paciente precisa ser internado, porque tem crise de abstinência, como um dependente de drogas. Em São Paulo, o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e o Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes, da Unifesp, têm programas gratuitos para tratar a dependência na internet.

Como diz Denise Mineiro, precisamos olhar no olho do outro, conversar, ouvir, trocar. A imersão da família na tecnologia traz à criança a sensação de abandono e insegurança. “Ela se sente desprestigiada e sem importância, capta a mensagem de que não é prioridade para os pais”. Por isso, esse período de volta às aulas pode ser a oportunidade de mudar a rota das relações familiares, para que todos vivam com mais saúde física, psíquica e emocional.

Por Chantal Brissac

Revista 29HORAS
Fevereiro/2017

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